Decisões Racionais Podem Arruinar Sua Vida?

A princípio, nós achamos que somos seres lógicos, mas todas nossas decisões racionais são movidas pelas emoções, mesmo aquelas que …

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A princípio, nós achamos que somos seres lógicos, mas todas nossas decisões racionais são movidas pelas emoções, mesmo aquelas que racionalizamos, ou seja, que damos uma razão.

No post de hoje, você vai conhecer a história de Elliot, um típico americano bem-sucedido.

Elliot era executivo de uma empresa próspera. Um marido, um pai, um amigo que tirava férias dos sonhos na praia. Tido como querido pelos colegas no serviço e também pelos vizinhos.

Porém, ele tinha dores de cabeça. O tempo todo. E não eram dores de cabeça comuns, do tipo “Toma-Um-Advil-Que-Passa”.

Ao passo que eram dores violentas, como se houvesse uma bola de demolição pendurada dentro da cabeça dele golpeando os olhos.

Elliot tomava remédios. Tirava sonecas. Tentava relaxar, ficar na boa, deixar para lá, aguentar firme.

Ainda assim, as dores continuavam. Aliás, só pioravam. Chegaram a um ponto em que Elliot não conseguia dormir à noite ou trabalhar de dia.

Finalmente ele foi ao médico, que fez lá aquelas coisas de médico… passou uns exames, recebeu os resultados e deu a Elliot a má notícia:

Ele tinha um tumor cerebral, bem ali no lóbulo frontal.

“Bem ali. Viu? Aquela mancha cinzenta, ali na frente. E, rapaz, é grande. Do tamanho de uma bola de beisebol, pelo que estou vendo”.

O cirurgião retirou o tumor, e Elliot foi para casa. 

Se recuperou, voltou ao trabalho. 

Voltou para a família e os amigos. 

Tudo parecia tranquilo e normal.

E aí tudo deu muito errado.

Decisões racionais sem eficácia

Elliot não rendia no trabalho. Tarefas que antes ele fazia com o pé nas costas passaram a exigir uma alta dose de concentração e esforço. 

Decisões simples, como escolher entre uma caneta azul ou preta, tomavam-lhe horas. Cometia erros básicos e levava semanas para consertá-los.

Sua agenda virou um buraco negro; ele perdia reuniões e estourava prazos como se cada um deles fosse um insulto ao próprio espaço/tempo.

Inicialmente, seus colegas ficaram com pena e seguraram a barra.

Afinal, um tumor do tamanho de uma pequena cesta de frutas tinha acabado de ser retirado da cabeça do sujeito. 

Logo depois barra começou a ficar muito pesada, e as desculpas de Elliot, muito descabidas.

“Você faltou a uma reunião de investidores para comprar um grampeador novo, Elliot? Sério? O que você tem na cabeça?”

Após meses de reuniões feitas de qualquer jeito e muita enrolação, a verdade era inegável:

A cirurgia havia retirado mais do que um tumor de Elliot e, na visão dos colegas, esse algo era uma grana preta da empresa. Elliot acabou sendo demitido.

Enquanto isso, em casa, as coisas não estavam muito melhores. 

Siga a receita: pegue um pai negligente, deixe-o no sofá vegetando, tempere com uma pitada de reprises de game shows e leve-o ao forno a 175°C, 24 horas por dia. 

Decisões racionais ou emocionais?

Essa era a nova vida de Elliot. Ele perdia as partidas de beisebol do filho. Faltou a uma reunião de pais e professores para assistir a uma maratona de James Bond na TV. 

Esquecia que a esposa gostava que ele falasse com ela mais de uma vez por semana.

Contudo, cada nova e inesperada rachadura deixava vazar uma briga — só que não dava para chamá-las propriamente de brigas. Uma briga requer o engajamento de no mínimo duas pessoas.

Nesse sentido, enquanto sua esposa cuspia fogo, Elliot tinha dificuldade de acompanhar a situação. Em vez de agir com urgência para mudar ou consertar as coisas, para mostrar que amava e se importava com a família, ele continuava isolado e indiferente.

Era como se habitasse outro fuso, fora do alcance de qualquer pessoa na Terra.

Até que sua esposa não aguentou mais. Na cirurgia, tiraram de Elliot mais do que aquele tumor, ela gritava. Tiraram a droga do coração também. Ela pediu o divórcio e levou as crianças. Elliot ficou sozinho.

Abatido e confuso, Elliot começou a procurar formas de recomeçar a carreira. Deixou-se levar por algumas empreitadas de risco. Um golpista abocanhou grande parte de suas economias. 

Uma interesseira o seduziu, convenceu-o a morar com ela e divorciou-se um ano depois, ficando com metade dos seus bens.

Elliot vagou pela cidade, indo morar em apartamentos cada vez mais baratos e xexelentos, até que alguns anos depois se viu praticamente sem teto. 

O irmão o acolheu e passou a sustentá-lo. Amigos e família assistiam, horrorizados, a um homem que admiravam basicamente jogar a vida fora num curto espaço de tempo. 

Ninguém conseguia entender.

Era inegável que algo em Elliot havia mudado, que aquelas dores de cabeça debilitantes haviam lhe causado mais do que dor.

A questão era: o que havia mudado?

A busca pela solução através de decisões racionais

O irmão de Elliot o levou a vários médicos. “Ele não está normal”, dizia. “Tem algum problema. Ele parece bem, mas não está. Juro.”

Os médicos fizeram lá aquelas coisas de médico e receberam resultados, que, infelizmente, só diziam que Elliot estava totalmente normal — em ao menos algo que se encaixava no que eles entendiam como normal, talvez até acima da média. 

As tomografias computadorizadas não acusavam nada. Seu QI ainda era alto. Seu raciocínio estava coerente. A memória, ótima. Era capaz de se estender sobre os efeitos e consequências de suas más escolhas. 

Conversava sobre uma ampla gama de temas com bom humor e charme. Segundo o psiquiatra, Elliot não estava deprimido.

Pelo contrário, tinha uma autoestima sólida e nenhum sinal de ansiedade crônica ou estresse — exibia uma calma quase zen, mesmo estando no olho do furacão causado pela própria negligência.

O irmão não conseguia aceitar. Algo estava errado. Algo estava faltando.

Finalmente, no desespero, Elliot foi encaminhado a um famoso neurocientista chamado António Damásio.

O combustível das decisões racionais

De início, Damásio fez as mesmas coisas que os outros médicos: submeteu Elliot a uma série de testes cognitivos. Memória, reflexos, inteligência, personalidade, relações espaciais, raciocínio moral — tudo normal. 

Elliot foi aprovado com louvor.

Então o neurocientista fez algo que nenhum outro médico havia cogitado: conversou com ele; conversou de verdade. Queria saber tudo: cada equívoco, cada erro, cada arrependimento. 

Como Elliot havia perdido o emprego, a família, a casa, as economias? 

Me explique cada decisão, a lógica de pensamento por trás de cada uma delas (ou, naquele caso, a falta de lógica).

Elliot era capaz de explicar em detalhes quais decisões havia tomado, mas não conseguia explicar o motivo. 

Lembrava dos fatos e sequências de eventos com uma fluidez perfeita e até mesmo certa carga dramática, mas quando lhe pediam que analisasse seu processo de tomada de decisão — por que achou que comprar um grampeador era mais importante do que encontrar um investidor?, por que havia considerado James Bond mais interessante que seus filhos? —, dava um branco. 

Não tinha respostas. E não só isso: não parecia sequer abalado. A verdade é que ele não dava a mínima.

Ali estava um homem que havia perdido tudo por causa de más escolhas e erros, que apresentava uma ausência total de autocontrole e tinha plena consciência do desastre em que sua vida se transformara, e no entanto não aparentava qualquer remorso, qualquer auto repulsa, nem sequer um pouco de constrangimento.

Muita gente cometia suicídio por menos. E ali estava ele, não apenas confortável com o próprio infortúnio, mas indiferente.

Se faz sentir, faz sentido

Foi quando Damásio teve uma percepção brilhante: os testes psicológicos a que Elliot fora submetido eram concebidos para medir sua capacidade de pensar, não sua capacidade de sentir. 

Todos os médicos haviam se preocupado tanto em identificar se ele estava apto a raciocinar que nenhum deles havia imaginado que os danos de Elliot talvez tivesse na sua capacidade emotiva.

Mas mesmo que tivessem se dado conta disso, não existia uma forma padronizada de medir esses danos.

Um dia, um dos assistentes de Damásio imprimiu uma série de fotos grotescas e perturbadoras.

Vítimas de queimaduras, cenas de assassinato horrendas, cidades devastadas pela guerra e crianças morrendo de fome. Então as mostrou para Elliot, uma a uma.

Elliot ficou completamente indiferente. Não sentiu nada. 

E sua falta de reação foi tão chocante que até ele mesmo comentou que era doentio. 

Admitiu que tais imagens com certeza o teriam abalado no passado, que seu coração teria se contorcido de empatia e horror, que teria virado o rosto com aversão. 

Mas naquele momento, sentado ali, diante das mais sombrias distorções da experiência humana, Elliot não sentia nada.

O verdadeiro problema

Então, concluiu Damásio, era o problema: embora o conhecimento e o raciocínio de Elliot estivessem intactos, o tumor ou a cirurgia para removê-lo haviam debilitado sua capacidade de empatia e sentimento.

Seu mundo interior já não abarcava luz e sombra, mas se resumia a um infinito miasma cinzento. Assistir ao recital de piano da filha evocava nele toda a vibração e o esfuziante orgulho paternal de comprar um par de meias.

Perder um milhão de dólares lhe causava tantas emoções quanto encher o tanque do carro, pôr os lençóis para lavar ou assistir a um game show. 

Ele havia se tornado uma máquina ambulante de indiferença. E sem dispor da habilidade de fazer juízos de valor, de diferenciar o melhor do pior, independentemente de quão inteligente fosse, Elliot havia perdido seu autocontrole.

Mas isso levantava uma grande questão: se as habilidades cognitivas de Elliot (sua inteligência, sua memória, sua atenção) estavam todas em perfeito estado, por que ele já não era mais capaz de tomar decisões efetivas?

Aquilo intrigava Damásio e sua equipe. Todos já desejamos em algum momento não sentir emoções, pois elas muitas vezes nos levam a fazer bobagens das quais nos arrependemos depois.

Durante séculos, psicólogos e filósofos partiram do pressuposto de que represar ou suprimir as emoções era a solução para todos os problemas da vida.

Eu mesmo achei que as emoções só me atrapalhavam e cheguei a pensar como seria bom se eu tivesse um botão para simplesmente desligar minhas emoções e fazer o que tem que ser feito.

Ah, pobre Alan, sabe de nada, se pudesse fazer isso acabaria tendo um fim como Elliot.

O lado obscuro das decisões racionais

Um homem inteiramente destituído de suas emoções e de sua empatia, alguém a quem haviam restado apenas a inteligência e o raciocínio, e cuja vida havia se degenerado depressa. 

O caso de Elliot contrariava todo o senso comum a respeito de decisões racionais e autocontrole.

Mas havia uma segunda questão, igualmente intrigante: se Elliot tinha inteligência aguçada e conseguia resolver qualquer problema através da lógica, por que seu rendimento profissional despencara?

Por que a sua produtividade tinha ido ladeira abaixo? Por que, em termos práticos, abandonara a família sabendo muito bem quais seriam as consequências negativas? 

Mesmo que você já não dê a mínima para sua esposa ou seu trabalho, deveria ser capaz de concluir racionalmente a importância de mantê-los, certo? 

Fala sério, até os psicopatas compreendem isso. 

Como Elliot não compreendeu? 

O que custa aparecer numa partida de beisebol juvenil vez ou outra?

Decisões racionais necessitam de um catalisador

De alguma forma, ao perder a capacidade de sentir, Elliot também havia perdido a capacidade de tomar decisões. Havia perdido a habilidade de controlar a própria vida.

Todos já passamos pela experiência de saber o que deveríamos fazer, mas, mesmo assim, não conseguir sair do lugar.

Todos já adiamos tarefas importantes, ignoramos pessoas queridas e deixamos de agir em benefício próprio.

Sendo que, na maioria das vezes, quando deixamos de fazer algo necessário, é sob o pressuposto de que não conseguimos controlar nossas emoções tanto quanto precisávamos.

Mas depois de ler essa mesma história que eu acabei de contar no livro Fodeu Geral, um livro sobre esperança de Mark Mason e pesquisar sobre este caso na internet para me certificar que ele era real, eu entendi a importância desta pergunta que eu já me faço há muito tempo.

Por que?

Se questionar o porquê não para racionalizar, mas para sentir.

Há algum tempo eu já tinha percebido que eu só tomava atitude quando sentia, quando me emocionava, mas muitas vezes achava que isso é besteira.

Depois de ler sobre a história de Elliot eu comecei a valorizar ainda mais esta pergunta.

Não é atoa que o primeiro episódio do podcast Vida Lendária é “Por que?”.

A minha sequência natural de perguntas ao entrar ou iniciar qualquer projeto é:

  • Por que?
  • Com quem?
  • Como?
  • O que?

Sempre nesta ordem e eu explico o porquê disso no episódio #001 Por quê? do podcast Vida Lendária, que você pode ouvir agora clicando aqui.

Depois de escutar essa história eu espero que assim como eu, você entenda que suas emoções são o motivo pelo qual você age e compreendendo isso você desvenda o poder da ação.

E com o poder da ação ativado, convido você a conhecer O Poder de Fazer Perguntas.

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